Quem se importa com a moda?
Moda? Que moda?
A moda dos desfiles, na qual Dior, Galliano, Versace, Chanel, Fraga, Herchcovitch transformam tecido em arte, geram símbolos que — ainda que por vezes mal compreendidos — provocam desejo antes mesmo que a roupa atravesse a passarela?
Ou a que Gisele Bündchen, Naomi Campbell, Bella Hadid eternizam (até a próxima edição) em poses clicadas em revistas renomadas?
Moda…
Aquela usada pelos transeuntes que atravessam ruas e avenidas, levando um pouco de cor para o asfalto cinzento? Ou aquela que apresenta Maria, a advogada; Joana, a zeladora; Clara, a doutora; e a tia Rô, a professora?
Moda? Aquela que sugere que José largou há pouco a enxada; que denuncia que Maurício acaba de chegar da balada; ou a que Antônio acabou de vestir para uma entrevista de emprego?
Estudantes, projetistas, jardineiros, funcionários públicos, desempregados, modistas, vendedores, influenciadores, médicos, garçons. Estilistas, modelistas, costureiras, pilotistas e artesãos. Todos caminham pela mesma calçada. Entre barracas de camelôs e lojas-conceito, tropeçam na pressa, esbarrando em suas identidades, sugerindo modos de ser e de estar de toda a gente.
Ninguém se importa com moda?
Talvez se importasse com a moda, Noel Rosa, que, no samba, se questionou:
“Mas agora com que roupa? Com que roupa, eu vou? Pro samba que você me convidou?”
Não por causa do samba, mas pela forma como a sociedade se preocupava com a aparência em meio à precariedade e à pobreza à época. A música, em si, é uma crítica social, retratando a corriqueira situação de decidir que roupa usar em determinada situação, que não só se molda, mas também se adequa às convenções sociais.
A moda torna pública a nossa maneira de viver. À medida que uma sociedade cresce, mudanças sociais, culturais e comportamentais acontecem. Os padrões estéticos de roupas que você jurava que usaria por longas décadas, em pouco tempo, ficam esquecidos nos cabides. Talvez por não caberem mais no seu manequim, talvez por não se encaixarem nas trends que mais engajam, ou porque não cabem mais em quem você é hoje.
Parte do que somos é formada pelo nosso passado, refletido nas cores, nas formas e nos aromas. A moda ilustra nossos sonhos, ideias, desejos e fantasias. Por isso, importam-se com moda antropólogos, sociólogos, historiadores, filósofos e também os marketeiros. Inclusive, a indústria química, que participa das decisões sobre qual escala tonal irá colorir seu closet.
Pensar em cores, formas e texturas e associá-las a uma personalidade não é objeto de futilidade, nem tão insignificante quanto se supõe. A famigerada moda é uma forma de linguagem não verbal que participa das transformações sociais, culturais e psicológicas.
O que você veste, como você se veste; o seu corte de cabelo, os acessórios que você usa, as cores que você escolhe e até os trejeitos do seu corpo, todavia, falam por você. As palavras dão voz; a linguagem não verbal, cor e forma.
Uma palavra é lida e interpretada pelo que ela é, dentro do seu contexto. A moda é lida e interpretada pela sua manifestação simbólica e semiótica. A moda é uma forma de documentar a nossa própria existência.
A linguagem não verbal se baseia na tríade: história, interpretação e imaginário, sendo um elemento primário, principal e criador, que influencia comportamentos e estruturas sociais.
Primário porque a imagem precede a fala. Principal porque ela narra algo, mesmo que sem intenção alguma. E criador porque aquilo que ela reflete produz novas formas de ser e também de se relacionar.
Desde quase toda a existência da indumentária, se usou de tecidos, da confecção de modelagens e de ornamentos na construção das estruturas sociais: divisão de classes, estilos de vida, gênero, faixa etária, tribos culturais, hierarquia, religião e até códigos ocultos presentes em grupos iniciáticos, herméticos ou místicos.
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| imagem: julian mora_unsplash |
Sejamos bem honestos: ainda que você pense em moda apenas como função, nós nos importamos com a moda sim, enquanto ocupamos lugares de observador e observado.
“A moda moderna nasce quando a vestimenta deixa de ser função e torna-se linguagem: a cada ano, um novo código é produzido.” (BARTHES, Roland. Sistema da moda. São Paulo: Editora Nacional, 1979, p. 15).
A cada novo código, costura-se quem se é àquilo que te sugerem ser. Falar sobre moda é compreender a sua forma de estar no mundo.
O corpo não só veste a roupa, veste história, cultura e memória — ele transporta narrativas históricas.
Devemos falar sobre moda para que o ciclo “comprar – ter – ser” seja invertido, para que o “ser” ocupe o seu lugar, sustente a veste que cobre o corpo e desnude a alma.
Obrigada por ler até aqui. Agora, me conta, o que a moda significa para você hoje? Deixe sua opinião nos comentários, vou adorar continuar essa conversa com você.
Por Gabriela Gomes.




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